Blend, Corte, Assemblage

Blend, Corte, Assemblage

Hoje em dia estamos super habituados a comprar vinhos pela uva. “Amo Pinot Noir”, “ vou levar uma Malbec para o churrasco do final de semana” ou “quero experimentar aquele Chardonnay” são frases muito comuns. No mundo do vinho, os monovarietais – ou seja, vinhos feitos com apenas uma casta de uva- são relativamente recentes. Ao longo da história, bebia-se o vinho regional, harmonizado com a comida local e estava tudo ótimo. Pouco importava se havia Cabernet Franc no Bordeaux. Os vinhos de regiões europeias estabelecidas ao longo dos séculos leva no rótulo a sua região de procedência. Podem ser blends como os vinhos de Bordeaux, ou 100% Pinot Noir como nos da Borgonha, mas o rótulo sempre indica apenas a região de procedência.

Foi nos Estados Unidos, na década de 1960 que esse cenário começou a mudar. Para atrair a atenção do mercado mundial para seu produto, os produtores americanos passaram a utilizar no rótulo nomes de uvas já conhecidas do grande público. Uma maneira dos produtores do Novo Mundo posicionarem seus produtos e competirem com o mercado Europeu. Mas o blend, também chamado de corte ou assemblage, continua a fazer muito sucesso pelo mundo.

 

O corte bordalês é um do mais famosos do mundo. Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e Petit Verdot são a base deste blend..

 

A necessidade de utilizar diferentes castas viníferas sempre existiu em Bordeaux devido ao seu clima chuvoso e instável. A uva Cabernet Sauvignon demora mais para amadurecer, e em anos de muita chuva pode ficar tânica demais. A Merlot, que amadurece antes, é mais frutada, com taninos mais aveludados, e ajuda a suavizar o caráter tânico. Cabernet Franc dá aromas e complexidade. Petit Verdot, usada em pequenas quantidades dá cor e corpo ao blend. Ou seja: essa mescla de uvas dá equilíbrio ao vinho. Se falta acidez á uma uva, mistura-se com outra que dá cor, corpo, taninos. E assim os enólogos fazem alguns dos melhores e mais longevos vinhos do mundo.

Châteauneuf-du-Pape, vinho do sul do Rhône, utiliza 13 uvas no seu blend (oficialmente, pois são 23 as uvas utilizadas na região). Nessa região o desafio é o vento Mistral, que vem do Mediterrâneo e pode danificar as vinhas.O clima quente tende a deixar os vinhos muito alcoólicos e tânicos, então cada produtor cria seu estilo para um vinho equilibrado.

Em Portugal, até hoje é comum se utilizar o field blend na região do Douro. Ou seja, pegar uma parcela de terreno, colher as uvas que nasceram lá e vinificar todas juntas. Um grande exemplar deste estilo é o Abandonado de Domingos Alves de Souza. Por anos a vinícola tentou plantar novas videiras em um pedacinho de terra com vinhas de oitenta anos de idade. E nada ia bem lá. Então deixaram a chamada “vinha do Abandonado” sem grandes intervenções . Somente as vinhas velhas sobreviviam por lá. Quando resolveram vinificar uvas daquela parcela, o resultado foi um vinho longevo, complexo e premiado no mundo todo. Este blend leva mais de 20 castas de uva, e o resultado é extraordinário!

Eu, particularmente, não tenho grandes preferências por blends ou varietais. Claro que os monovarietais são muito bons para aprender a distinguir uma uva ou região específica. Indispensáveis para os estudos de um sommelier. Mas um blend bem feito, equilibrado e complexo é sempre uma excelente opção.

Daniella Dinis
Sommelière

/daniella.w.dinis
@danielladinis