Em 1989, os produtores de cacau da região de Ilhéus, no sul da Bahia, conheceram o terror. Um por um, os cacaueiros de suas fazendas foram secando, minguando, morrendo. Começava o ocaso de uma cultura centenária, que era a engrenagem-mestra de toda uma cadeia produtiva e gerava milhares de empregos. Os grandes fazendeiros acharam que era bruxaria. E era, ou quase: tratava-se da vassoura-de-bruxa, um fungo que surgiu tão inesperadamente quanto o flagelo que se abateu sobre a região.

Décadas depois, Ilhéus retoma a produção do fruto cuja amêndoa é a matéria-prima para a fabricação do chocolate, ainda que de forma bem acanhada com relação à produção antiga. Agora, busca obter um cacau melhor, ideal para a fabricação de chocolates finos, um nicho no mercado mundial. E sempre convém frisar que Ilhéus tem lindas praias e muitas outras atrações num pedaço abençoado do litoral baiano.

Os recém-lançados roteiros do chocolate com visitas, hospedagem e almoços incluem fazendas que produziram ou ainda produzem cacau.

O nome original desse cacau albino é Catongo e refere-se a fazenda em que a planta albina, originária de mutação espontânea, foi identificada pela primeira vez no século 20.

Esse tipo de cacau é recessivo para a produção da substância antocianina que dá aquela cor mais escura para as amêndoa do cacau comum.O resultado é uma amêndoa albina, com o interior branco, dando então um resultado de um chocolate mais claro, com sabor leve e suave, com baixa acidez e notas cítricas e frutadas, além de dozes e amêndoas, características bem valorizadas no universo do cacau.

Em 1950 virou febre e todos os produtores queriam o catongo, o que não acabou prosperando já que na época a variedade albina representava um volume muito pequeno diante da produção nacional que focava nas amêndoas tradicionais com tom arroxeado.

Apesar de tantas qualidades, o cacau albino nunca teve tanta ênfase, acabando que foi meio deixado de lado nos últimos anos. Só que o cenário atual é diferente e a produção tem sido retomada.

A família Magalhães foi responsável por essa retomada na Fazenda Lajedo de Ouro na cidade baiana de Ibirataia pertinho de Ilhéus onde estou por alguns dias.

A Fazenda Lajedo de Ouro é uma fazenda focada na produção do mais puro cacau fino, tem renome e tradição no cenário internacional e vem se estabelecendo como referência em produção de diversos tipos de cacau incluindo o albino.

A retomada dessa produção com foco em mais qualidade aqui na região é de extrema importância e deve ser comemorada.

A qualidade desse chocolate que comprei em uma loja na Praça da Tainha em Barra Grande é fenomenal.

O sabor do chocolate deve ser apreciado como o primeiro gole de um vinho, devagar e tentando identificar as várias nuances de sabor que pipocam na boca.

Eu, pessoalmente, não sou #chocolover mas quando me deparo com algo diferente e ainda mais sendo produção nacional, não penso duas vezes e experimento.

Seu sabor foi tão surpreendente que me inspirou a buscar mais informações sobre essa jóia, o cacau albino, e fiz essa matéria. Espero que tenham gostado e até a próxima semana.



Fontes:

www.sacolabrasileira.com.br

www.correiobrasiliense.com.br