Tenho mais de 50 anos, cresci em meio à democracia racial brasileira, um país maravilhoso que supostamente encantava a e acolhia a todos, de fronteiras abertas! Ser uma mulher negra nos últimos 55 anos não foi difícil, não foi dolorido, não me impossibilitou de realizar absolutamente nada…Como assim? Exatamente, como assim?

Há muito tempo sou peça única nos ambientes em que transito, como docente universitária, como empreendedora no meu setor – Consultora em gestão de negócios, especialista em alimentos e bebidas – como cliente, como turista, como amiga…

Cada vez que entrava em um ambiente onde eu era a única pessoa preta no local, não conseguia me sentir uma pessoa privilegiada e nenhuma vítima, só me perguntava onde estão os outros? Tenho amigos que me execram hoje por levá-los exatamente a essa mesma observação: Onde estão os outros?

Lendo o livro do Lázaro Ramos – Na minha Pele – há alguns anos atrás, onde ele enfatiza em uma passagem do livro que qualquer negro em posição de destaque na sociedade brasileira, está em posição de privilégio, que me toquei que de verdade eu não sabia nada sobre racismo no meu país, que eu não contribuía de verdade para a transformação da sociedade em que sou parte, pois, eu não assumia que vivia em um país racista e mesmo que eu não visse, não enxergasse que minha condição era privilegiada, com certeza aos olhos dos brancos que me rodeavam isso era muito claro. Eles viam e sabiam mais do que eu!!!!

Aos 24 anos ouvi de um ex-chefe: “Você é tão orgulhosa, mas tão orgulhosa que vai chegar em algum lugar nessa vida, pois você tem tudo contra você: Você é mulher, é negra e é da periferia!” Fiquei tão ofendida naquele momento, tão furiosa e tomei essa frase tão impactante como o gatilho, o input da minha vida.  Lembro muito bem da minha resposta: O que para você é empecilho para mim é motivação!  

Faz muito pouco tempo que percebi, o quanto ele estava certo e que ao contrário de tê-lo abominado por essa frase por muito tempo eu deveria tê-lo agradecido, ele sabia mais do que eu o lugar onde eu estava. 

Sempre repetia a mim mesmo  que o país que eu vivia era tão preconceituoso em tantas instâncias que e não tinha tempo para isso –  preconceito com mulher, com homossexuais, com nordestinos, com negros, com pobres, com gordo, com magro, com loiras, uiii….era muita coisa para considerar. Eu segui em frente!! 

E hoje do alto do meu privilégio, sinto-me na obrigação de fazer parte da discussão, do enfrentamento do racismo e da misoginia no MEU país. Sim, no meu PAÍS!!! Não sou Afro nada, sou brasileira, filha, neta, bisneta de brasileiros negros e brancos. Negros aqui trazidos de maneira escrava, mas que construíram o país, de brancos que se renderam ou que se impuseram às mulheres negras e sua beleza, sou mais uma brasileira resultado da miscigenação que formou a nação brasileira.

Vera Araújo

“Ser a cota me empodera e me entrega por direito à aquilo que sempre foi meu!”