Malbec: a estrela da Argentina

Malbec: a estrela da Argentina

Hoje em dia é muito comum associarmos Malbec à Argentina. Mas essa uva passou por maus bocados até se tornar protagonista de grandes vinhos na região de Mendoza. Ela se originou na região de Cahors, no Sudeste da França, na época dos romanos. Uma imigrante que achou sua casa e sua identidade bem longe do seu local de origem.

Na Idade Média o vinho negro de Cahors ficou conhecido na Inglaterra e em toda a Europa através de Eleanor de Aquitânia, que viveu entre 1122 e 1204. Uma das mulheres mais poderosas da Europa na sua época, além de herdar as terras de seu pai, que correspondiam a grande parte do Sul da França, foi através de seus casamentos, rainha da França e da Inglaterra. Na sua corte não podia faltar seu vinho à base de Malbec.

Até o século XIX, Malbec fazia parte do corte bordalês e estava presente em alguns dos vinhos mais importantes do mundo na época, como Château Latour e Château Cheval Blanc. No entanto, entre 1875 e 1889 os vinhedos do mundo todo foram atacados por uma praga chamada Phylloxera. Um inseto microscópico que atacava as raízes das videiras e as desidratava. A solução encontrada – e utilizada até hoje – foi enxertar as videiras europeias em raízes de videiras americanas, resistentes à praga. No entanto, a Malbec não se deu muito bem com esse método em Bordeaux, e foi substituída por Merlot e Cabernet Sauvignon.

Enquanto isso na Argentina, em 17 de abril de 1853 foi fundada a Quinta Nacional, uma escola de agronomia e viveiro de mudas, em Mendoza. Mudas de Malbec foram trazidas do Chile e se adaptaram muito bem ao clima seco e desértico, ao solo pouco fértil. Imigrantes italianos e espanhóis que chegavam à Argentina propagaram as plantações de Malbec pela região.

Na década de 1970 a Argentina passava por uma crise econômica e a procura era por vinhos de baixa qualidade, especialmente brancos e rosados. Muitas videiras de Malbec foram arrancadas.

Nicolas Catena e sua família são grandes protagonistas na história da Malbec na Argentina. Nos anos 1980 Nicolas passou um ano na Califórnia, e, observando como o mercado de vinhos americanos crescia, voltou a Argentina convencido que deveria investir na produção de vinhos de qualidade. No primeiro momento sua ideia era utilizar Cabernet Sauvignon, mas à medida que foi melhorando as técnicas de plantio da Malbec, ela se mostrou cada vez melhor.

Enólogos do mundo todo foram contratados na década de 1990 para dar consultoria aos viticultores argentinos, como o americano Paul Hobbs e o francês Michel Rolland. O mundo começou a perceber o potencial de Mendoza e da Malbec. Mas ainda faltava uma coisa: um toque de acidez e elegância dos vinhos de clima frio. E a solução encontrada foi plantar em altitude.

A Argentina tem os vinhedos mais altos do mundo, de até 3.000m acima do nível do mar em Salta, chegando a 1.200m Mendoza. Os dias ensolarados e noites frias do sopé dos Andes dão à Malbec argentina sabor frutado, taninos aveludados e acidez perfeita.

Em 1996 o Catena Alta Malbec- safra 1996, ganhou 94 pontos de Robert Parker. Um feito notável em pouco tempo, que impulsionou cada vez mais a busca por qualidade no vinho argentino.

O melhor do Malbec é que podemos achar exemplares a preços bem acessíveis, e excelente qualidade. Então espero que no dia 17 de abril de 2021 vocês tenham celebrado, cada um na sua casa, essa uva tão especial de nossos vizinhos. De preferência na companhia de uma bela carne Argentina, lógico. Saúde!

Daniella Dinis
Sommelière

/daniella.w.dinis
@danielladinis