Os androgênios circulantes diminuem com o envelhecimento. A ocorrência da síndrome de deficiência androgênica, que engloba o Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH), associada à perda da libido e sensação de bem-estar é observada com certa frequência na pós menopausa. Vários ensaios clínicos randomizados demonstraram que o uso de testosterona transdérmica (pela pele) há uma melhora significativa no TDSH em mulheres pós-menopausadas que tiveram ooforectomia bilateral (retirada dos dois ovários) e em algumas que tiveram menopausa natural. A reposição hormonal com testosterona pode ter outros benefícios em mulheres na pós-menopausa, incluindo o aumento na massa corporal magra e densidade mineral óssea. Portanto a reposição hormonal da menopausa em pacientes selecionadas deve ser feita por meio de estradiol (para os fogachos e manutenção de densidade mineral óssea), associado `a progesterona (para as pacientes com útero) e ainda com testosterona para aquelas com TDSH.

Menopausa e Baixa Testosterona

A menopausa, a cessação da função ovariana, tipicamente ocorre em mulheres com idade entre 40 e 55 anos, ou como resultado de retirada dos ovários ou uma castração pela quimioterapia ou radioterapia. Está associada a uma redução acentuada na circulação dos estrogênios, que podem causar sintomas vasomotores (fogachos e suores noturnos), alteração de humor e sintomas de atrofia vulvovaginal. Algumas mulheres também podem ter um efeito sobre função sexual, incluindo baixo desejo sexual.

A diretriz do Instituto Nacional de Saúde e Atendimento de Excelência sobre o diagnóstico e manejo de menopausa recomenda considerar a reposição de testosterona para mulheres com baixo desejo sexual se a terapia de reposição hormonal convencional (estrogênio e progestagênio) tem sido ineficaz (1). O adesivo de testosterona autorizado em 2006 pela Agência Européia de Medicamentos para uso em mulheres menopausadas foi retirada do mercado europeu em 2012 por razões comerciais. No entanto, atualmente utiliza se a testosterona por via transdérmica, off label, em forma de gel ou cremes manipulados.

Androgênios na mulher

Os ovários e as glândulas adrenais são as principais fontes da síntese de androgênio na mulher. A testosterona é o principal androgênio ovariano e a dehidroepiandrosterona, o principal androgênio adrenal. As suas ações fisiológicas incluem efeitos sobre o crescimento capilar axilar, desenvolvimento ósseo e muscular e na regulação do desejo sexual.

Os androgênios circulam na corrente sanguínea, predominantemente ligado a proteínas transportadoras tais como globulina de ligação aos hormônios sexuais. Sua forma livre atua via receptores androgênicos nos tecidos alvos e indiretamente pela conversão em estrogênio via aromatização. Nas mulheres, o nível de androgênios circulantes diminui com a idade. Embora tenha sido hipotetizado que os níveis decrescentes de androgênios são responsáveis pela redução da função sexual durante a menopausa, estudos que medem os androgênios séricos na pré-menopausa e mulheres na menopausa não mostraram uma relação consistente entre baixa concentração de androgênios e redução da função sexual (2). Avaliação da concentração sanguínea de androgênios não deve ser usada para diagnosticar disfunção sexual feminina (3,4).

Disfunção sexual

A libido reduzida foi previamente classificada no Diagnóstico e Manual Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV) como uma forma de transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH). A classificação do DSM-5 atualizado dividiu o TDSH em diagnósticos específicos de sexo (5) como sintomas de “interesse sexual feminino / distúrbio da excitação”, que incluem ausência ou redução significativa do interesse em atividade sexual, pensamentos sexuais ou fantasias e redução da iniciação da atividade sexual. De acordo com DSM-5, estes sintomas devem existir 75-100% do tempo, precisam persistir por um período mínimo de cerca de 6 meses, e causar sofrimento significativo para a mulher e não ser explicada por um transtorno mental não-sexual, como consequência de aflição de relacionamento (por exemplo, violência de parceiro) ou outros estressores.

No entanto, a classificação dos transtornos da função sexual feminina foi criticado pela propagação de uma doença, que assim pode ser associado à promoção de prescrição off-label e outras táticas para criar interesse no tratamento medicamentoso.

Evidência de suplementação de testosterona em mulheres na pós-menopausa

Vários estudos controlados randomizados investigaram os efeitos da terapia de testosterona em mulheres na pós-menopausa com sintomas de disfunção sexual.

Em 2009, uma revisão dos principais ensaios publicados com o uso principalmente da testosterona comercializada (Intrinsa®), um adesivo transdérmico que libera 300µg de testosterona por dia (6). Os ensaios utilizaram diferentes doses e vias de administração (principalmente transdérmica), e a testosterona foi usada isolada ou em conjunto com

reposição de estrogênio. Alguns ensaios incluiram mulheres com menopausa natural, outras mulheres com menopausa induzida cirurgicamente.

Todos os estudos excluíram mulheres com comorbidades psicológicas ou médicas que poderiam impactar sua função sexual (de acordo com o diagnóstico DSM-IV e DSM-5). Além disso, a maioria dos estudos estava restrita a mulheres com relacionamentos estáveis e monogâmicos. As medidas de resultado na maioria dos estudos foram baseadas em três escalas que foram desenvolvidas por uma companhia farmacêutica. Cada escala cobre um dos componentes da definição de TDSH: atividade sexual, medida pelo Registro de Atividade Sexual (RAS); desejo, medido pelo Perfil da Função Sexual Feminina (PFSF) (6).

No geral, nas populações selecionadas estudadas, os ensaios mostraram uma resposta ao placebo e que a reposição com testosterona resultou em melhora nos parâmetros sexuais (6,7) com padrão de segurança adequado, isto é, baixo efeito adverso em curto período.

Conclusão

A terapia transdérmica com testosterona, dosada dentro das faixas de testosterona fisiológica da pré-menopausa, usada isolada ou com terapia hormonal na menopausa para transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, mostrou eficácia de curto prazo, com poucos efeitos colaterais androgênicos. Após a menopausa natural ou cirúrgica, as melhorias significativas incluem um episódio sexual adicional satisfatório por mês; melhora no desejo, excitação, orgasmo, prazer e capacidade de resposta; e uma redução na angústia (8). Faltam dados de longo prazo sobre segurança cardiovascular, câncer e cognitiva. Nenhuma preparação de testosterona aprovada está disponível para mulheres. Cremes de testosterona combinados ou dosagem reduzida de terapias masculinas aprovadas representam o uso off-label. Injeções ou implantes causam níveis suprafisiológicos de testosterona e não são recomendadas (8).

Caso você apresente transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa converse com o seu ginecologista!!

Referências

1. National Institute for Health and Care Excellence, 2015. Menopause: diagnosis and management (NG23) [online]. Available: http://nice.org.uk/guidance/ng23.

2. Davis SR et al. Circulating androgen levels and self-reported sexual function in women. JAMA 2005; 294: 91-6.

3. Reid R et al. Managing menopause. J Obstet Gynaecol Can 2014; 36 (eSuppl A): S1-80.

4. Wierman ME et al. Androgen therapy in women: a reappraisal: an Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab 2014; 99: 3489-510.

5. American Psychiatric Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorders. Fifth Edition. Washington DC: American Psychiatric Association, 2013.

6. Testosterone patches for female sexual dysfunction. DTB 2009; 47: 30-4.

7. Achilli C, et al. Efficacy and safety of transdermal testosterone in postmenopausal women with hypoactive sexual desire disorder: a systematic review and meta-analysis. Fertil Steril. 2017

8. Pinkerton JV, Blackman I, Conner EA, Kaunitz AM. Risks of Testosterone for Postmenopausal Women. Endocrinol Metab Clin North Am. 2021 Mar;50(1):139-150

Dra. Rita Dardes
@ritadardes